BBB 26, violência contra a mulher e a responsabilidade da maior emissora do país
E quando falamos disso, não estamos falando de “mimimi”, nem de exagero moral.
Estamos falando de feminicídio.
Estamos falando de agressão psicológica.
Estamos falando de um Brasil que luta diariamente para reduzir a violência doméstica.
E, nesse contexto, a responsabilidade da mídia não é opcional. É obrigação.
Um país em alerta
O Brasil convive com índices alarmantes de feminicídio e violência doméstica.
Campanhas institucionais se multiplicam.
Movimentos sociais pressionam por mais proteção às mulheres.
Leis são debatidas e reforçadas.
A própria TV Globo historicamente promove campanhas contra a violência e em defesa da igualdade.
Mas então surge a pergunta:
Como conciliar esse discurso institucional com a tolerância a falas e comportamentos que minimizam estupro, reforçam estereótipos machistas ou utilizam ataques pessoais como estratégia de entretenimento?
O que se viu no BBB 26
O programa foi palco de:
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Declarações que relativizam violência sexual.
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Comentários que alimentam preconceitos sociais.
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Ataques pessoais envolvendo fragilidades familiares.
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Estratégias agressivas direcionadas a mulheres dentro da casa.
E tudo isso transformado em conteúdo de alto engajamento.
Conflito gera audiência.
Polêmica movimenta redes sociais.
Indignação mantém o programa nos trending topics.
Mas audiência não pode ser superior à ética.
A edição e o filtro
Outro ponto delicado:
O programa exibido na TV aberta ocupa menos de uma hora diária.
Grande parte do conteúdo completo fica disponível apenas para assinantes do Globoplay.
Ou seja:
O público que não paga pelo streaming recebe uma versão resumida.
Editada.
Selecionada.
Se a justificativa para não aplicar punições severas é “contextualização”, por que o contexto completo não é exibido na TV aberta?
A informação parcial protege quem?
Transparência seletiva também é escolha editorial.
Violência simbólica também mata
Num país onde mulheres são assassinadas por parceiros e ex-parceiros, não podemos ignorar que a violência começa na palavra.
Começa na desqualificação.
Começa na humilhação pública.
Começa na naturalização do ataque.
Reality show não é terra sem lei.
Liberdade de expressão não significa liberdade para reforçar estruturas culturais que sustentam agressões.
Quando comportamentos problemáticos recebem apenas advertências brandas, a mensagem implícita pode ser perigosa:
“Faz parte do jogo.”
Não.
Não pode fazer parte do jogo.
Sonia Abrão: coerência e coragem
Ao criticar o BBB 26, Sonia Abrão não atacou o entretenimento.
Ela questionou a incoerência.
E questionar incoerência é papel do jornalismo.
Num ambiente em que muitos evitam confrontar a maior emissora do país, ela optou por se posicionar.
E isso merece reconhecimento.
Não se trata de cancelar ninguém.
Trata-se de exigir responsabilidade proporcional ao alcance da emissora.
A pergunta que fica
Se a Globo levanta bandeiras institucionais contra a violência e o machismo, por que não estabelece regras mais rígidas quando essas mesmas questões surgem dentro de seu programa mais lucrativo?
Ataques a familiares que não estão no jogo deveriam ser tolerados?
Humilhações públicas podem ser tratadas como estratégia legítima?
Entre audiência e ética, qual deve prevalecer?
Minha Palavra final
Eu vivi um tempo em que a comunicação foi usada para manipular, silenciar e proteger interesses de poder.
Aprendi que mídia não é neutra.
Ela forma opinião.
Ela educa.
Ela influencia comportamento social.
Quando a maior emissora do país escolhe relativizar determinados comportamentos, essa escolha ecoa muito além de um reality show.
Entre discurso e prática, precisa haver coerência.
Ou o público começa a perceber que certas bandeiras só valem no intervalo comercial.
—
Por Rodolfo Varela