O jornalismo esportivo brasileiro vive uma crise ética e de identidade que beira o insuportável. O que antes era um espaço nobre para análise técnica, exaltação de conquistas e crônica apaixonada, transformou-se em um balcão de negócios pautado pelo sensacionalismo barato e pela busca frenética por audiência a qualquer custo.
Nessa engrenagem perversa, opera-se um duplo desrespeito: enquanto a memória e a imagem dos maiores ídolos do país são trituradas, o próprio público que consome o conteúdo virou alvo de chacota.
Há um padrão histórico de comportamento nocivo nessa mídia. Pilotos do calibre de Nelson Piquet e Ayrton Senna, reverenciados no mundo inteiro por sua genialidade e contribuição técnica ao automobilismo, muitas vezes são reduzidos por aqui a polêmicas de bastidores. Programas de debate preferem alimentar uma rivalidade inflamada e artificial a resgatar o legado de ambos.
Essa miopia não é nova: basta lembrar o crime de imagem cometido contra Emerson Fittipaldi na década de 1970, cujo projeto pioneiro da Copersucar F1 foi sufocado por deboches da imprensa imediatista, ou a caça implacável à vida pessoal de Pelé, o Rei do Futebol.
Hoje, a "bola da vez" dessa máquina de moer reputações é Neymar Júnior. Há mais de uma década carregando a Seleção Brasileira nas costas como a grande referência técnica do país, o atacante é alvo de uma perseguição diária que cruza a linha da crítica esportiva para se transformar em humilhação pessoal.
Neymar na Copa do Mundo
O mais estarrecedor é a hipocrisia de quem comanda esses ataques: bancadas de debates formadas por ex-atletas e comentaristas que cobram uma conduta impecável, mas que, em suas próprias carreiras, acumularam episódios de indisciplina grave, agressões físicas e cusparadas em juízes de futebol, além de sérios problemas pessoais com dependência química. Sem qualquer autoridade moral para dar exemplos, esses personagens utilizam o microfone para desvalorizar aquele que ainda é um dos maiores talentos do futebol mundial.
Incapaz de criar conteúdo de qualidade sobre os feitos esportivos, essa mesma comunicação de massa direcionou sua agressividade para o público. Assiste-se hoje, perplexo, a programas de rádio e televisão onde apresentadores chamam ouvintes e telespectadores de "orelhudos" — um eufemismo covarde para "burros" — quando estes discordam de suas opiniões. Mais grave ainda é ver profissionais, em um ataque de pura soberba, mandarem o cidadão em casa "mudar de canal" ou "trocar de emissora" se não estiver satisfeito.
Essa postura inverte a lógica mais básica da radiodifusão e da publicidade. Diante de tamanha arrogância, o boicote silencioso do controle remoto e do botão do rádio tem sido a resposta legítima de uma audiência cansada de ser destratada em seu momento de lazer.
Diante desse cenário de terra arrasada, uma pergunta crucial se impõe: será que vale a pena para os patrocinadores atrelarem suas marcas a esse tipo de comportamento?
Rei Pelé é reverenciado até pelo mais humano dos lances
As grandes empresas investem milhões para construir imagens institucionais baseadas em empatia, respeito e responsabilidade social. No entanto, no momento do anúncio, essas marcas são jogadas no meio de um ambiente de ofensas, gritarias e linchamentos virtuais. Ao financiarem programas onde o cliente final é insultado e os maiores patrimônios do esporte nacional são vilipendiados, os anunciantes correm o risco real de sofrerem o efeito colateral da rejeição do consumidor.
O silêncio mais ensurdecedor, contudo, vem das diretorias de programação. Como diretores de TV e rádio conseguem conviver pacificamente com tamanha mediocridade ética? A resposta está na planilha de lucros imediatos. Enquanto o escândalo gerar cliques e alimentar a engrenagem comercial, a dignidade do esporte e do público continuará sendo sacrificada no altar do faturamento.
GP às 10: Histórico pódio de Fittipaldi no Rio com a Copersucar
Ignorar os nomes desses personagens midiáticos é um dever cívico, para não inflar ainda mais suas métricas digitais. O foco deve ser a estrutura: o esporte brasileiro merece respeito, as marcas merecem um ambiente saudável e o telespectador, que sustenta toda essa indústria, merece ser tratado com a dignidade que sua atenção vale.